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Ação 7

logosPrograma e conteúdos de Curso Estruturado  – Cyprus – the forty Dragons

De 24 a 30 de outubro de 2016

Um dos temas do curso consiste em saber de que forma o “património cultural e a história” se refletem nas diferentes formas de arte: poesia, artes plásticas, ambiente construído, monumentos etc. Este tema está a ser elaborado no Chipre em colaboração com um artista de Chipre e um poeta cipriota. Os participantes irão visitar lugares relevantes e prestar atenção a esses lugares e às várias formas de expressão artística. Também serão convidados a praticar essas formas de arte: impressão, teatro e poesia/literatura. Dentro deste contexto, os principais temas são: Símbolos utilizados pelas várias comunidades de Chipre; Os vários grupos que contribuem para o património cipriota: gregos, judeus, venezianos, cruzados, otomanos; O património religioso; A tradição musical; Mito e realidade; A educação do património cultural e a reconciliação.

O título ‘Os quarenta dragões‘ reflete este tema, com base numa série de gravuras do artista cipriota Hambis através das quais expressa a sua terra natal sendo invadida por uma série interminável de opressores.

DIA 1

Chegada a Nicósia, encontro do grupo de trabalho e introdução ao programa do curso.

DIA 2

Introdução, Sul de Nicósia

Introdução ao curso Chain

Nicósia, uma cidade dividida

A cidade velha de Nicósia e a “Green Line” – numa sociedade dividida em que ambas as comunidades têm os seus símbolos

Visita a vários monumentos

Almoço em Matheus

Percorrendo a “Green Line”

Visita ao Museu Leventis

DIA 3

O norte

Visita ao Concelho de Kyrenia- Southern Nicósia

Visita ao Norte de Nicósia: Arabahmet – Igreja Arménia – Centro – Selimiye Camii / Ayia Sofia – Mevlana Tekke – Bairro Samanbahce (habitação social islâmica)

Castelo Hilarion

Kyrenia (Girne)

DIA 4

Ícones

O local de nascimento de Afrodite

Visita ao centro de gravura do Hambis, Platanistia, Hambis – o trabalho reflete elementos da herança do Chipre: Kalikandjari, praia de Afrodite, a divisão.

Almoço no centro de gravura Hambis

Oficina de formação

DIA 5

Visita à oficina de Nina Iakovou – ceramista de Famagusta

Quatro ruínas no Norte do Chipre: Enkomi / Alassia, Salamis, Famagusta, Varosha

Poemas de Kyriakos Charalambides sobre a cidade

Encontro com Umit Inatci, artista visual e poeta

DIA 6

Reflexão e avaliação

Encontro com Kyriakos Charalambides, poeta

Visita à Galeria Leventis

Reflexão: Ícones de identidade – uma abordagem comparativa

Jantar e música cipriota

DIA 7

Sessão de certificação

Chipre, uma ilha dividida...

Chipre, uma ilha dividida…

Uma ilha, por muito grande que seja é sempre um espaço confinado aos seus próprios limites, como que por definição!

Algumas delas, por serem tão imensas, quase não cabem dentro de si, por isso de tal forma se expandiram que chegaram a impérios. Outras são maiores que continentes inteiros, são continentes inteiros!

Mas, para além da dimensão, das suas montanhas, picos e planícies, desertos, de areia ou gelados, marca-as a sua gente, os povos que as habitam e habitaram, inscrevendo-lhes traços, fortalezas e castelos, estátuas de heróis, colunas e templos, linhas na história, correntes…

O mesmo se poderá dizer afinal de todos os territórios ligados a outros, juntos, embora nos mapas nos tenham ensinado a olhá-los, a identifica-los pela clareza das suas cores separadas apenas pelo traço contínuo, fronteiras criadas por vezes em perfeita esquadria, mas nem por isso de eterna harmonia.

Menos comuns são as fronteiras no seio de uma ilha. Existem, é verdade! Explica-o a história dos homens e constata-o a geografia. A fronteira do mar que as abraça parece nem sempre lhes chegar.

Chipre, ilha, mar. Séculos e séculos do mesmo Mediterrâneo. “Mare Nostrum” (o nosso mar), ocasionalmente apelidado de “Mare Internum” (mar interior) para os Romanos, dado que tinham conquistados todas as regiões à sua volta. Em árabe, “Al-Bahr Al-Abyad Al-Mutawassit” ou seja “mar branco do meio”. Para os Turcos, “Akdeniz” (mar branco), porque antigamente designavam os pontos cardeais por cores.

Tantas vezes viu chegar de Este e de Oeste, do Norte e do Sul, gentes tão distintas na sua tez, vestes, armas e vontades, sempre em busca do mesmo afinal, tesouros, riquezas, poder! Quarenta dragões…

Chipre, ilha, dividida na sua história recente. Ilha de capital única e singular: Nicósia, Lefkossía para Gregos, para Turcos, Lefkoşa. Terra separada — norte e sul, eles e nós, nós e eles. Como num poema, o Rei, o Valete e a rainha, sempre de pé, sempre de cabeça para baixo!

Uma só linha, recta por vezes, retorcida, indecisa até. Aqui e ali quase se toca a si própria, como que se ultrapassa, como que se confunde! Uma só linha no entanto.

Duas partes que foram uma só. Frente a frente? Ou de costas voltadas? Parece demasiado fácil dar um simples passo e estar do outro lado. Ir e regressar num instante. A linha é tão fina, frágil que pode partir-se. Mais valia não esta ali, mas está. Mesmo se a podemos atravessar, caminhando, tranquilamente, sem precisarmos de um corajoso raid de bicicleta, trágico destino acontecido, deparam-se-nos ao vento desfraldadas demasiadas bandeiras içadas de cada lado da linha demarcada.

Azul, branco, encarnado, símbolos em todas inscritas. Demasiadas bandeiras para tão pequena coisa! Dir-se-ia à primeira vista. Mas a impressão imediata é normalmente enganadora, errada até. Olhe-se então para a fina linha. No mapa parece até ridícula, mas no chão empoeirado, momentos há em que se alarga, ainda que os olhos alcancem o que está semi escondido do outro lado da barreira. De que cor é? Verde. Linha verde, green zone, chamam-lhe! Estranho nome, bizarria?

Gostamos de imaginar as cores das coisas, a tal ponto que até da esperança dizemos ser verde. Mas de que esperança? Daqueles que sonham voltar um dia à casa onde nasceram? Regressar a um lugar cujas memórias teimam em resistir, mas que para os mais novos nem memória é? Ou da esperança de que a linha, verde ou de qualquer outra cor, se mantenha mesmo que baloiçando, mas que resista, que não se quebre em pedaços como um vaso antigo perdido em ruínas submergidas pelo tempo.

Quantas bandeiras valerá a pena içar? Quatro? Três? Duas? Arrisco dizer ser melhor que uma só, porque por agora, nestes dias incertos, apenas uma, parece demasiado pouco e demasiado simples para tanta história.

Chipre, uma ilha dividida …

Nicosia walled city has been enhanced by a network of pedestrian streets marked by this symbol.

Nicosia walled city has been enhanced by a network of pedestrian streets marked by this symbol.

Carlos Ubaldo

11/2016

Texto composto no contexto do curso “Forty dragons”, (Chain project – initiatives in the field of European heritage ), integrado no projecto a Escola aberta ao Exterior/ Erasmus+

Para saber mais: http://chain.eu/?m3=41390

Noticias

Trabalhos desenvolvidos no âmbito do curso  – Cyprus – the forty Dragons como contributo para ‘Comprehending Europe’ [Clique Aqui]

Tradução do Poema: Criança com retrato, da autoria de Kyriakos Charalambides,  um dos mais conhecidos poetas gregos vivos.

A sua poesia liga-se  com a história, tradição e cultura do Chipre. Uma parte muito importante do seu trabalho reflete a tragédia da ilha depois de 1974. Depois da invasão turca do Chipre em 1974, ele próprio  se  tornou um dos muitos refugiados da ilha.

Versão em Grego

Κυριάκος Χαραλαμπίδης, 
“Παιδί με μια φωτογραφία” 
(Θόλος, 1989)

Παιδί με μια φωτογραφία στο χέρι
με μια φωτογραφία στα μάτια του βαθιά
και κρατημένη ανάποδα με κοίταζε.

Ο κόσμος γύρω του πολύς· κι αυτό
είχε στα μάτια του μικρή φωτογραφία,
στους ώμους του μεγάλη και αντίστροφα–
στα μάτια του μεγάλη, στους ώμους πιο μικρή,
στο χέρι του ακόμα πιο μικρή.

Ήταν ανάμεσα σε κόσμο με συνθήματα
και την κρατούσε ανάποδα· μου κακοφάνη.

Κοντά του πάω περνώντας πινακίδες
αγαπημένων είτε αψίδες και φωνές
που ’χαν παγώσει και δεν σάλευε καμιά.

Έμοιαζε του πατέρα του η φωτογραφία.
Του τήνε γύρισα ίσια κι είδα πάλι
τον αγνοούμενο με το κεφάλι κάτω.

Όπως ο ρήγας, ο βαλές κι η ντάμα
ανάποδα ιδωμένοι βρίσκονται ίσια,
έτσι κι αυτός ο άντρας ιδωμένος ίσια
γυρίζει ανάποδα και σε κοιτάζει.

Tradução em Português (Carlos Ubaldo)
 
Criança com Retrato
Uma criança com um retrato nas mãos,
um retrato refletido no fundo dos olhos,
invertido, olhando-me fixamente.
À volta da criança uma multidão;
nos seus olhos um pequeno retrato,
outro maior sobre os ombros e vice versa —
nos seus olhos um maior,
sobre os ombros outro mais pequeno,
na mão outro mais ainda.
Vociferava entre a multidão,
Segurando-o ao contrário; e isso perturba-me.
Aproximou-me dela Ignorado os sinais
dos entes queridos, os movimentos e as vozes
congeladas no tempo e completamente inertes.
O retrato parece do pai.
Fixe-o e vejo
o homem desaparecido de cabeça para baixo.
Tal como o rei, o valete e a rainha,
sempre de frente, sempre ao contrário,
também o homem assim permanece.